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RECADO AOS ENCRENQUEIROS

Por Carlos Chagas

Do jeito que as coisas vão, por conta da sucessão presidencial ou do choque que parece a próxima perda do poder, em dezembro, tem-se a impressão de  que o presidente Lula ficou pior. Com todo o respeito, anda formulando impropriedades mais do que já fazia. Pode ser por  euforia, agora que Dilma Rousseff cresceu nas pesquisas, como pode ser por desespero. Ou pela sua própria   natureza,  cada vez menos ortodoxa e mais  vinculada a conceitos que poucos entendem.
Tome-se o que Sua Excelência falou no Rio, ao  inaugurar  um centro de esportes na favela da Rocinha.  Sem mais aquela, dirigiu-se ao monte de jovens que o assistia, conclamando-os, entre aspas: “vocês que são encrenqueiros, saiam da rua e venham aqui para aprender um esporte e ganhar uma medalha olímpica...”
Mais do que vender  ilusões,  a palavra do presidente serve para confundir os incautos e os  menos favorecidos. Porque nem todos os que estão  na rua são encrenqueiros. Muito pelo contrário, a maioria encontra-se ao léu por falta de casa para ficar, a não ser para dormir amontoados e sem uma única luz de esperança.   Permanecer nos  barracos significa entregar-se  à indignação de não ter para onde ir. E de ceder à tentação do dinheiro fácil e da vida difícil do tráfico de drogas. 
Agora, estranha  fica a situação quando, na rua, são  chamados para aprender um esporte e ganhar  medalhas olímpicas. Trata-se de uma ilusão.  As quadras esportivas servirão para abrigar grupos   de privilegiados, dada a extensão do número de abandonados, quase todos sem propensão a tornar-se campeões de ginástica, tênis, corridas de fundo e mesmo basquete, vôlei e futebol.  Sendo assim,  apenas cultivarão a frustração  e, em seguida, a indignação. Ainda mais se lhes for incutido o sonho de subir a pódios inconquistáveis para a imensa maioria.  
Do que os despossuídos necessitam é de ânimo para romper o cinturão de miséria , coisa realizável apenas se a todos for dado o mínimo imprescindível para abandonar a rua. Estudo e emprego, o que só pode caracterizar-se com    escolas de tempo   integral do tipo dos Cieps dos tempos de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Leva-los a perseguir   medalhas será imaginar um país de excepcionais. Para cada premiado existem  milhões de iludidos, estes, sim, a merecer a atenção do poder público. Não os que por golpes de sorte e também de mérito excepcional forem premiados.
É a mesma história com que as elites tentam enganar as massas,  lembrando que um certo João da Silva (ou será Luiz Inácio da Silva?) vendia amendoim torrado na feira e tornou-se monumental dono de fábricas, empresas, bancos ou, quem sabe, presidente da República. Como se fosse possível a todos alcançar as nuvens, quando o que desejam é viver com  dignidade e usufruir dos direitos que toda pessoa deveria possuir pelo simples fato de nascer. Enganar a maioria com a esperança de um dia ganhar medalhas ou presidir um banco é o mesmo do que prometer o primeiro prêmio a quantos milhões arriscam seu dinheirinho  na mega-sena. Sempre haverá a próxima semana para pensar nos seis números milagrosos e, assim, anestesiar-se e não lutar pelo que lhe é devido.
Irônico é que o presidente Lula se engaje nesse raciocínio pernicioso, ou melhor, tente engajar os outros, já que ele, no final das contas, ganhou a medalha de ouro ou acertou na  mega-sena. O resto que continue tentando.  Não é com quadras de esporte  que se tira os encrenqueiros da rua, mas, vale repetir, com escolas de qualidade  e emprego para todos.