Serra: ‘Tema da eleição é o futuro, não é o passado’
‘Lula não é candidato, e a Dilma Rousseff
não é o Lula’
Governo Lula ‘trouxe alguns avanços. Foi ágil na crise’
‘Brasil não é país construído. Há muita
coisa a ser feita’
‘O Estado no Brasil é obeso. Defendo um
Estado ativo’
‘Sou a favor da existência
de Banco do Brasil e Caixa’
‘Defendo concessão de aeroportos, não a
privatização’
‘Tripé [inflação-câmbio-responsabilidade] veio pra ficar’
‘Os escândalos, no
Brasil, não são exclusivos do
PT’
Marcello Casal/ABr
Neste sábado (10), José Serra entra oficialmente na corrida
presidencial. Vai à disputa com a disposição de produzir algo parecido
com uma mágica. Candidato de “oposição”, foge do figurino do anti-Lula.
Esquiva-se de fazer críticas frontais ao presidente superpopular.
Neste sábado (10), José Serra entra oficialmente na corrida
presidencial. Vai à disputa com a disposição de produzir algo parecido
com uma mágica. Candidato de “oposição”, foge do figurino do anti-Lula.
Esquiva-se de fazer críticas frontais ao presidente superpopular.
Promete, na essência, algo muito próximo da
“continuidade”. Com uma diferença: declara-se mais preparado do que a
rival Dilma Rousseff. Esmiuçou suas ideias numa entrevista aos
repórteres Alberto Bombig, Guilherme Evelin e Helio Gurovitz.
O resultado foi às páginas da última edição da
revista Época, que começa a circular neste sábado. A íntegra pode ser
lida aqui. Na conversa, em
vez de criticar, Serra elogia Lula. Reconhece que o país avançou em
várias áreas.
Ao situar as
conquistas na linha do tempo, cuida de recuar a um período que inclui
as duas gestões do amigo Fernando Henrique Cardoso: “25 anos”. Vai
abaixo o que há de essencial sobre o pensamento de Serra:
- Por que um
brasileiro deve votar em Serra? Eu me considero preparado para esse desafio. É
algo para o qual eu talvez tenha me preparado a vida inteira. [...] Você
se candidatar e chegar à Presidência, além de uma decisão pessoal,
envolve muito destino.
– O que mudou em relação à derrota na campanha presidencial de
2002? Aprendi
bastante desde lá. Aprendi com a derrota. Aprendi com a reflexão.
Aprendi com a prefeitura, aprendi com o governo de São Paulo. [...] Eu
me considerava preparado em 2002. Mas hoje eu estou mais preparado que
em 2002.
– Lula tem
altíssimos índices de aprovação. Como convencer o eleitor a votar em
Serra?O tema da
eleição é o futuro, não é o passado. As pessoas vão eleger quem vai
dirigir o país nos próximos anos. O Lula não é candidato, e a Dilma não é
o Lula. [...] Nós vamos dar um passo para o futuro a partir de um
diagnóstico atual sobre o que pode ser feito para o Brasil ter mais.
Basicamente isso.
–
Que avaliação faz do governo Lula? Trouxe alguns avanços, sim. Acho que, por
exemplo, foi bastante ágil durante a crise internacional.
– A impressão é que o país nunca
esteve tão bem. O sr. diz que o Brasil pode mais. O que é esse mais? O Brasil não é um país construído. Há muita
coisa a ser feita. [...] Você tem muitas coisas por fazer. A retomada do
crescimento é promissora, mas ela tem de ser sustentável ao longo dos
anos...
– O Brasil hoje,
na comparação com o país da sua juventude, melhorou na oferta de
oportunidades? Nos
últimos 25 anos, o Brasil avançou bastante. Nós tivemos a
redemocratização, uma Constituição que garantiu a democracia, a
pluralidade e avanços sociais significativos. Nós tivemos também um
fortalecimento da agricultura, um avanço de eficiência na indústria.
Temos um sistema financeiro muito sólido. Conseguimos domar a
superinflação com o Plano Real. Entramos numa era de responsabilidade
fiscal. Avançamos muito na área da saúde, com o SUS, e na da educação,
no que se refere à inclusão. Reduzimos a pobreza. Isso tudo é fruto
desses 25 anos. Mas falta muito ainda, né? [...] Que o Brasil pode mais,
eu tenho certeza. O problema é como fazer.
– Qual é sua posição sobre o
papel do Estado? O
Estado no Brasil é um pouco obeso. Eu defendo um Estado ativo, que se
contrapõe ao Estado paternalista e produtor do passado e ao Estado da
inércia e da pasmaceira. Minha opção não é intermediária, mas nova.
[...] Se você incha o Estado, você até o enfraquece. A obesidade é uma
doença. Não é uma virtude física...
– Na prática, um Estado ativo significa o quê? Eu não sou a favor do Estado produtor como ele
era no passado, mas isso não significa que você vai retirar o Estado de
tudo. Sou a favor do Estado eficiente naquilo que faz e ativista,
insisto. É o Estado que regulamenta, em vez de intervir. [...] Agora, eu
sou a favor da existência de banco nacional, como o Banco do Brasil e a
Caixa Econômica...
–
Vai manter o tripé baseado em metas de inflação, câmbio flutuante e
responsabilidade fiscal? Olha, sem ser pretensioso, eu tenho a impressão de que quem fez a
denominação “tripé” fui eu. [...] Esse tripé está aí para ficar.
– Não não há o que mexer? Não. Agora, a forma como você aplica cada uma
das coisas não é única, sempre é determinada. Nós não estamos falando de
ciências matemáticas ou físicas. E mesmo as físicas, hoje, já são
relativas.
– O que acha da
idéia de dar autonomia para o BC? O BC brasileiro já tem bastante autonomia na
prática. Quando falam que querem fazer um banco igual ao FED [banco
central americano], isso, na verdade, implicaria ter de mudar totalmente
o BC, porque o FED, por exemplo, não tem a função de supervisão
bancária. Você teria de fazer uma legislação muito complexa. Não creio
que seja necessário.
–
Privatização virou palavrão no Brasil. Mas há casos, como o dos
aeroportos, em que ela parece ser indispensável, não? O termo correto não é privatização, é
concessão. Concessão tem um contrato, regras, pode ser quebrada. É
completamente diferente de privatização. Eu defendo a concessão de
aeroportos. [...] Não é que a concessão é a salvação da lavoura. Mas,
quando você faz uma concessão, você tem um cronograma. É a via mais
rápida e mais eficiente.
– O governo Lula se aproximou de Cuba, Venezuela e do Irã. Qual é
sua opinião sobre essa política externa? Defendo a política de autodeterminação. Você
não deve interferir nos assuntos de outros países. Por outro lado, nós
temos também uma responsabilidade com direitos humanos e com democracia.
O Brasil deve fazer ativamente todas as gestões que puder fazer no
sentido de serem respeitados os direitos humanos. Um princípio tem de
ser claro. Onde há preso por opinião, não há uma democracia. Isso não
significa que não vamos ter relação com esse ou aquele país...
– Como o senhor vê sua principal
adversária, Dilma Rousseff? Fica meio despropositado como competidor
analisar agora cada uma das pessoas. Sempre tive relações cordiais com
ela. Espero que a campanha seja cordial dentro do possível.
– Ao se despedidir do governo de
São Paulo, disse que não permitiu “roubalheira”. Foi uma referência aos
governos petistas? [...] Eu estava sublinhando a importância desse
valor. A imprensa deu uma ênfase ao que era uma parte restrita do
discurso, e alguns vestiram a carapuça sem que minhas palavras tivessem
sido direcionadas. Você vai olhar os escândalos no Brasil. Não são
exclusivos do PT.